sexta-feira, 19 de setembro de 2008

[do choro calado nas noites escuras]

Eu nem sabia se corria ou voava ou caía, eu nem sabia se era céu ou outro azul. Eu pensava que a minha passagem arrancava malmequeres e acordava joaninhas, eu pensava que era a manhã a rasgar a tarde. Pensava que era um segredo-grito, uma estrela cadente a nascer. Eu pensava que era maior que os sonhos e que no meu trilho brotariam roseiras. Eu pensava que o mundo me observava às escondidas e que as pessoas iriam ser mais felizes por ouvirem falar de mim. Eu saltava riachos e troncos caídos e não parava nunca. Eu trepava rochas e árvores, eu entrava sozinha no mar. Eu encontrava as conchas mais bonitas e conseguia ouvir todas as melodias raras, eu sabia que os meus postais eram os únicos mesmo mágicos. Eu sorria da janela de comboios e aviões, eu cantava baixinho quando todos dormiam. Eu partia sem avisar e chegava numa surpresa. Eu achava que era certeza, que era destino.

E ouço outra e outra vez o som dos passos todos e sou só saudade.

sábado, 16 de agosto de 2008

[ela disse que eu era um mundo inteiro de sonhos pequeninos secretos sagrados]

Quando for grande, vou ser.
Uma aventureira.
Diplomata.
Astronauta.
Física.
Primatóloga.
Escritora. De canções.
Super-estrela.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

[das surpresas]

Ela nem sequer devia ter lá estado no dia que mudou a sua vida, mas uma colega pedira-lhe para fazer por ela o turno da noite, para poder ir jantar com o enfermeiro novo, aquele dos olhos azuis. Ela nem sequer acreditava. Talvez fosse o marido ausente (camionista), talvez fossem os filhos insuportáveis (treze e sete anos), talvez fosse a mãe doente (artroses, reumático e cataratas), mas era mais que falta de sabor, ela, era já só pastel e encolher de ombros. Ela nunca acreditaria num detalhe num só dia.

E nada o anunciava. Nos quartos os velhotes do costume, nas urgências um ou outro rapaz que bebera demais, na sala de espera zelosas mães com constipadas crianças ao colo. E então, ninguém sabe bem como, a médica partiu um dedo ao forçar um bebé rabujento a nascer. Ninguém sabe bem porquê, foram chamá-la, a ela, para assistir a paciente seguinte. Ela nunca tinha feito um parto. Assistira a alguns durante o curso, claro, mas já lá iam quinze anos durante os quais as únicas crianças que vira nascer tinham sido os seus próprios filhos. Tremia quando entrou na maternidade.

E então viu-a. Procurou na ficha da paciente e espantou-se por ela não se chamar Rosinha. Pensou que nunca tinha visto ninguém tão feliz. Apercebeu-se, num arrepio, de que se podia ser feliz assim. Quando deu por si estava ao pé dela a ouvi-la contar do marido e das duas filhas que esperavam lá fora e faziam apostas quanto ao nome da menina. Menina? Sim, outra menina, sorriu, e sou sempre eu que descubro o nome delas, depois de as ver pela primeira vez. Acho que está a chegar, querida.

Ela esqueceu-se de todas as coisas. Tudo era aquele quarto, a mulher mais feliz do mundo e uma menina que ainda escondia o seu nome. Sentiu uma cor de espanto subir-lhe aos lábios enquanto preparava as toalhas. Estranhou quando sentiu cócegas nas orelhas, ela que já nem se lembrava de que tinha cócegas ou orelhas. De repente, sem reparar, estava pronta.

Ela nem sabia que alguém podia nascer assim. A menina espreitou com os olhos mais parecidos com um sorriso que ela já tinha visto e deixou que a puxasse para fora, mundo novo, mundo novo. Ela segurou-a bem alto, mundo novo, mundo novo. A menina só se ria, olhos, boca e dedos dos pés. E, onde a menina era riso, ela era ainda espanto.

Mas é estrela, é manhã, é laranjeira e girassol, esta menina, disse ela, sem dar pelas palavras que rolavam dos lábios cor de espanto, é flauta e pedrinha dourada, é cantiga a flutuar no prado, é raposa a brincar no rio, é dança na noite da praia e reflexos da água ao sol! A menina piscou os olhos, agitou os pés e cantou um choro manso de quem chegou agora e teve saudades. E ela só soube abraçá-la com cuidado e pousá-la no colo da mãe.


Ela nem sabia que chorava quando ouviu a mulher mais feliz do mundo sorrir, tocar no nariz da menina e dizer baixinho Joana, antes de a embalar com voz de margarida.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

[quiet, now]



(ninguém vai saber)

domingo, 18 de maio de 2008

[the sun on the window-sill]

"When I am grown up I shall carry a notebook - a fat book with many pages, methodically lettered. I shall enter my phrases. Under B shall come 'butterfly powder'. If, in my novel, I describe the sun on the window-sill, I shall look under B and find Butterfly powder. That will be useful."

Bernard, in Virginia Woolf's The Waves